O Filho da Porta

“MOM-TIA … Goo-molling … chou san!”.

Assim anunciava com a sua voz forte e nessa linguagem peculiar, o começo do dia no edifício “Veng San” (永新), 

“Eternamente novo”, como seria traduzido para português, o auspicioso e bem intencionado nome desse edifício. Efectivamente, assim se esperava quando acabou de ser construído, nos finais dos anos setenta do século passado, com uma traça arquitectónica moderna fora de comum para altura, com tons sóbrios de verde esbatido nas partes salientes e branco no fundo. Com quatro fracções por cada dos seus quinze pisos, albergou parte da grande vaga de quadros portugueses do início da década seguinte, numa altura em que também aí estavam os então jogadores hispânicos da pelota basca. Mais tarde, absorvera ainda algum do contingente australiano, que vinha para as corridas de cavalo a trote, na então remota Taipa.

Sem surpresa, o velho Kong Va aprendera a lidar com esse universo multinacional, de gente de tão diversos mundos que por acasos de vida se encontravam a partilhar o perenemente novo edifício. Na verdade, não tinha de o fazer. Mas pelo seu feitio, nunca se limitaria a ser um simples porteiro.

refugeesFilho de pais refugiados da província de Fujian, entrou com cinco anos de idade em Macau, pelas Portas do Cerco em 1940, dias antes da queda de Hong Kong nas mãos dos japoneses. A vida não era fácil para chineses, encarados como povo inimigo pela potência belicosa de então, mesmo em solo neutro, como era o secular enclave português – o único ponto na imensa China, oficialmente em paz. Não foi preciso lição alguma para perceber, que para viver teria primeiro de sobreviver, e para isso tudo valia. Enquanto o pai puxava jerinxás e a mãe lavava a roupa da vizinhança, o pequeno Kong Va deambulava pela cidade, fazendo biscates, sendo moço de recados, assistindo senhoras no mercado, carregando os seus sacos de compra, apoiando os asilos de invalidez e de refugiados.

Desde muito moço, convencera-se de que precisava de uma receita estável e assim, sendo tarefeiro, teria que ser arguto, eficiente, conversador e, acima de tudo, discreto, para ganhar confiança de todos quantos regularmente assistia. Não obstante a fome à espreita, fazia questão em ser diferente dos outros, que se aproveitavam das situações para furtar. Tinha que se dar com todos. Tudo para garantir que ao jantar houvesse um pouco mais de arroz, para além do que o suor de seus pais trazia para as suas tigelas.

Não conheceu a infância, pois cresceu depressa e cedo se virou adulto. Duro de físico, era libente de espírito,  graças ao que conheceu e cruzou com muita gente. Não falava português, nem inglês. Mas, fazia-se entender nessas línguas com um léxico próprio, completando-se com sons, bocados de palavras, olhares e gestos de uma comunicação universal.

IMG_2145Sabia quem seria novo inquilino e quem deixara de o ser, as horas que todos entravam e saíam. Resolvia o problema de todos, desde o entupimento dos canos até as falhas da recepção televisiva. Se não podia arranjar por si, chateava quem o pudesse e devesse fazer. Homem sensato que entendia as questões em poucas palavras. “Nâm pissisa falâ… Kong Va sábi tudo!” (1)Acima de tudo, mantinha a ordem e fazia o trabalho que nem todos teriam o desplante de fazer.

Não poucas vezes viam-no a descompor meninos mal comportados que jogavam a bola no átrio da entrada. “Minino-malánto nâm-póte!” (2)era o seu vernáculo, ao que não admitia réplica.

Ou então, quanto à viúva do terceiro andar “A”, tornada aluna do Conservatório que flagelava à noite meio mundo com uma ária esganiçada, era ele quem bateria à sua porta, com mãos à cabeça, para um implorado “Aia! sióla, muto balúio … nâm-póte dumí!” (3).

Farejava esturro à distância, e quantas vezes não se o ouvira dirigir-se ao forasteiro de mau-olhado, com um sonante “Kat-chât-lou” (4) ou mesmo no seu castiço português  “Puta-caláio vai casa!”. Dizia-o com tanta autoridade que raramente tinha de fazer valer os atributos físicos que lhe dera o calvário da sua vida. Apesar de possuir mãos para estalo e murro, também levava sova de quando em vez, mas o agressor cogitaria a dobrar, antes de planear um novo retorno ao prédio.

Sabia das virtudes e defeitos de todos, que à surdina da noite se revelavam. Mas, mantinha a sua boca selada, qualidade que fazia questão em honrar. IMG_8028O seu silêncio mantinha-o indefinidamente seguro, com autoridade moral para assegurar a ordem no edifício. Aliás “que ganho eu com os podres dos outros, senão a podridão de um cusco?”, dizia ele aos seus botões.

Para uns ele era um filho da mãe – “com um P bem soado!”, como insistia um inconformado. Para outros, o filho do Divino colocado à porta do edifício, para a paz e sossêgo de todos.

Porém, anos passaram e coisas mudaram. Foram-se as pessoas e os ventos sopraram para outros nortes.  O tempo não poupou o já velho edifício, cujo nome passou a ser uma ironia. O verde esbatido era agora mais musgo que tinta, que se alastrava pelo branco, por sua vez já acinzentado.  Nos corredores já não se ouvia português, nem o já idoso Kong Va exercitava o seu invulgar vocabulário. Em seu lugar, passou a ser o inglês com forte pronúncia de tagalog, o mandarim ou então um cantonês amandarinado. Já não tinha tanta força nas pernas para subir e descer pelas escadas do edifício. E tudo se abandalhou.

Não obstante, Kong Va exercia ainda alguma influência sobre a manutenção da ordem, resolvendo à sua maneira as dores de cabeça de todos. Até que chegou um novo inquilino, com características bem diferentes. Mais implicativo e crítico de tudo quanto existia no edifício. IMG_6048Sujeito franzino, de bigode, com um penteado do tipo tapa-carecas, Kenneth Tam vinha de Hong Kong, com ideias muito próprias sobre a gestão de condomínio, à custa do que desdenhava “o atraso de vida” reinante em Macau. Repugnava-lhe no prédio o ambiente “terceiro-mundista” oriundo da “promiscuidade de nacionalidades”, como qualificava. Não nutria confiança por quem não fosse semelhante a ele.

Estava de peito feito para implementar grandes mudanças, quando se tornou administrador. Afinal, dizia, protegia a sua propriedade e o investimento de todos os condóminos, o que lhe merecera aplauso de todos e legitimidade bastante para se impôr. Encheu as paredes de avisos e notificações. Passou a haver regras para tudo e assembleias gerais a todo o tempo.

A única coisa interessante em Kenneth, era tão-só que se casara com alguém que nada tinha a ver com ele. De pele alva, tatuada nas vistosas costas, stockings-hiheelde altura mediana, cabelos lisos e sedosos, seios pequenos mas orgulhosos, ancas ágeis, ela tinha compleição física que faria ressuscitar qualquer alma condenada à morte eterna. O som dos saltos que o seu bamboleante e pausado andar causava sobre o chão de mármore, prenunciava pecado aos homens e  ciumeira violenta às suas mulheres.

Até o velho Kong Va franzira as sobrancelhas quando pela primeira vez a vira e inalara o seu aroma de sândalo. Contudo, para ele o espectáculo durou pouco, pois foi das primeiras vítimas do “grande salto para a frente” no prédio. Recebera a carta, tal como os seus colegas seniores, de que não se lhes renovaria o contrato de prestação de serviços de vigília. O novo plano de reabilitação do edifício não se compadecia com o amadorismo de um punhado de idosos, requeria antes o profissionalismo de uma empresa de segurança. Não se revoltara contra isso, pois o seu bom senso já o tinha precavido dessa data, vários anos atrás. Mas as duas semanas que lhe deram para resolver a sua vida tornaram-se matirizantes.

Na noite em que se despedia de todos, decorria mais uma assembleia geral de condóminos, em que Kenneth vangloriar-se-ia dos seus últimos feitos, desta vez apresentando a todos a nova equipa de vigilância que contratara. No quarto adjacente à portaria, Kong Va despachava a sua quinquilharia acumulada no decorrer do tempo, desde bocados de gaiola, até rodas de carrinho de bebé, quando um grito histérico se soou nos corredores. Alguém andou a urinar no elevador e ninguém quer saber, que vergonha, ouvia-se. O administrador, irado com a interrupção que o malfadado brado causara, embaraçado com o comentário pouco lisonjeador, foi logo ter com Kong Va. Antes que este iniciasse uma careta, vociferou.

“Estou-me nas tintas se é o teu último dia. Quero saber quem anda a sujar o meu prédio! Onde mora e com quem. E tu vais-me dizê-lo com todo o pormenor que eu queira!”

“Sim, Sr. Tam. Percebido”. Iria ser esmifrado até o último momento, foi o que bem depreendera daquele tom de voz e dos olhinhos de tacanhez. Não obstante, encolhera os ombros e não reagira. Iria honrar o seu compromisso até o último segundo, como também sabia há muito ser da sua sina.

lambaz

Dirigiu-se ao elevador, com balde de água e lambaz e observou a poça. Não era volumosa. Não era canina, nem felina. O odor não acusava álcool, nem consumo de fritos. Se o sujeito estava aflito, teria descarregado litros e nunca seria no elevador, pensou. Ou então, estando aflito, não seria adulto. Não vira alma nenhuma, apenas se ouviam aplausos efusivos que se ressoavam da sala improvisada para a reunião dos condóminos. Encolheu os ombros e pôs-se a limpar a sujidade.

Pressentiu que não estava só. As paredes velhas do edifício pareciam sussurar-lhe sobre uma alma tímida à espreita num canto do longo corredor. Kong Va fingiu não dar por isso e resolveu introduzir-se no elevador à espera de um movimento do exterior. Prevendo uma correria que passaria pelo elevador, só teve de esticar o pau do lambaz na altura certa. O suficiente para fazer tombar um gigante. Porém, o que se estatelou no chão fora algo que confirmara as suas suspeitas.

“You?” Kong Va reconheceu-o, mirou para o local molhado e fixou nele os seus olhos julgadores.

filipino_boyPlease Sir, patawad po (5)! I didn’t mean to be a masamang bata (6), Sir. But I couldn’t go home, don’t be mad at me, please Sir!”, desfazia-se o pequeno em pranto, quer de pavor, quer de vergonha, enquanto os seus calções se encharcavam de urina.

“You velly malánto! Nei-tou no toilet! You want shi-shi… you go out!” (7)Exclamou o velho, no vernáculo de que já sentia saudades.

“No time, sir, I’m so sorry. It won’t happen again! Please don’t tell my dad!

Antes de terminar a frase, já o menino fora puxado para dentro do elevador e Kong Va pressionando o botão de subida para o 11º andar. Ignorando as suas súplicas, foi direito ao seu apartamento.

À porta ouviam-se murmúrios ritmados em contrabalanço com um martelar compassado, mal se discernindo, contudo, se era metal contra a parede, se madeira contra o chão. O certo é que a campainha tocava e ninguém correspondia. Kong Va, bem ciente do que se passava aí dentro, já não tinha a paciência de outrora, cerrou o punho e deu três pancadas fortes à porta de madeira. Rapidamente cessou a martelada, mas nem por isso a chamada foi atendida. Mais três murros se seguiram, cada um mais forte que o outro.

A porta abriu-se por fim e saiu de lá Aquilino, um filipino, arfando descalço e seminu. Fitou no olhar frio e penetrante do velho porteiro, com a mão dada ao seu filhote, ranhoso e de calções molhados, e percebera da borrada em que se metera. Juntou as mãos em posição de prece.

Pa...pataw…”.

A manápula rugosa do velhote no pescoço franzino do filipino, impediu que ousasse a acabar a frase. Apontou o seu indicador directamente para o seu nariz.

“Nest time you tiu-hai, boy stay and shi-shi home. Chi-ng-chi-tou?! I call police!” (8)

Aquilino sentira uma vontade súbita de repetir a façanha do seu pequenote. Kong Va, porém, olhou por cima dele, para a escuridão. Não viu ninguém, mas inalara e franzira as sobrancelhas. Meneou a cabeça, suspirou fundo e deixou o filipino em paz, ante o seu atarantado filhote. Tinha cumprido o seu papel, não precisava de mais.

Já em baixo de novo no seu poiso, continuou a lidar com a sua bugiganga. Nessa altura, tinha terminado a assembleia geral e Kenneth transpirava vitória. O administrador prontamente se dirigiu ao estaminé do velho.

“Então, o que me contas? Solta a língua!”

Foi um puto que estava aflito e que não conseguia entrar em sua casa. Nada de mal, não se preocupe. Já está com o seu pai e já limpei tudo o que tinha que limpar, Sr. Tam.”

“Casa de quem? Casa daquela gente?”

Kong Va apenas baixou as suas pálpebras. “Está resolvido, Sr. Tam. Já lhe chamei a atenção, asseguro que…”

“Eu fiz-te a pergunta. Responde sim ou não!”

“Sim, Sr. Tam.”

“E quem mais estava dentro de casa?”

Não vi mais ninguém. O que está dentro de casa, não é da nossa conta, Sr. Tam.”

“Tens a fama de saberes de tudo e agora não viste mais ninguém? Sou o administrador tenho o direito de saber que gentalha mora aí. Não te armes em espertinho, quem mais esteve naquela casa, seu velho canalha?! “

As pálpebras do velho semicerraram. Havia muito que não exercitava os músculos que a sua vida lhe dera, de cuja rigidez não duvidava. Com a mesma mão que apertara o pescoço de Aquilino, segurou a gravata de Kenneth e puxou-o para si. E sem pestanejar mirou nos aturdidos olhos do administrador. E segredou:

“A sua mulher, acredita se quiser! E diga-lhe que sândalo sai-se muito mal com o fedor de  suor, Sr. Tam!”

Fez-se silêncio fúnebre no “Veng San”. Não mais foi importunado até ele deixar o local.

Enchera com os seus haveres e pequenas lembranças um saco de plástico rijo com listras de cor azul e rosa e arrastou-o para o corredor. Olhara para o relógio, quando badalara a meia-noite. Chegara o fim desta longa etapa da sua vida. Os seus incansáveis olhos percorriam pelos cantos do edifício, pela derradeira vez. Muitas das paredes levavam já a nova pintura encomendada por Kenneth. Ficaram vistosas, com tons alegres e joviais, um ar de novidade se introduzia no edifício, lufando frescura. Fez-se jus ao seu nome que afinal não era mera ironia.

Mas para Kong Va, cada canto era uma voz, cada ranhura um grito, um bocado de si que a nova pintura tratava-se de apagar. Em poucas horas de pincelada soterrava-se uma vida, para ganhar uma outra nova sem passado e de futuro incerto. Encolheu os ombros e saiu do edifício.

A lua resplandecia no firmamento. Olhou para trás, sorriu e também pela última vez se despediu do dia.

“Mo-nôte!” 

Macau, 8 de Junho de 2018, sexta feira.

© Miguel de Senna Fernandes

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(1) “Não é preciso dizer mais, Kong Va compreende tudo!”

(2)  “Meninos marotos, não podem (jogar à bola)!”

(3) “Ó minha senhora, é muito o barulho … ninguém dorme!”.

(4) Calão cantonês correspondente a “Vai p’ró c*ralho!”.

(5) “Peço perdão” em tagalog (filipino).

(6) Traquinas, em tagalog.

(7) “És um maroto. Isto aqui não é uma retrete. Queres xi-xi, tens de sair (do prédio).

(8) “À próxima que f*deres, o teu puto fica e mija em casa. Entendes?  Ou eu chamo a polícia!”

 

Hora do tempo

“SABES que horas são?”

Se há pergunta que mais nos incomoda! Não a Humberto, porém. Ele nunca tinha de a responder, pois era antes ele quem a fazia.

manage-time-10-tipsSolteiro, nos seus 40 anos, Humberto Salinas era director comercial da “Time Change” uma empresa de importação e exportação de relógios e acessórios, de e para o Continente. Indivíduo de uma competência rara em tudo quanto metia o seu dedo. Disciplinado, resoluto nas tarefas que desempenhava, pressionaria sem hesitar qualquer botão, se fosse caso disso. Não porque fazia tudo à toa, não queria era perder tempo.

Começava o dia às 7:05. Isso mesmo, às 7 horas e cinco minutos os seus olhos abriam. Não precisava de despertador. “É da minha natureza”, dizia, vangloriando-se dessa sua qualidade, que considerava um dom, numa era em que se morre tanto pelos alarmes.

Às 7:15 teria feito a cama e acabado de se lavar, com o seu fato de treino enfiado para um power walk no paredão da Taipa. Não demoraria muito, mas em quarenta e cinco minutos de marcha contínua, segundo lera, o corpo começaria a sentir os benefícios de uma pulsação a 140 batidas ao minuto.

Às 8:15 já de fato cinzento, gravata azul-escuro e camisa branca, escolhidos e passados a ferro na noite anterior, sairia de casa e às 8:30 estacionaria o seu carro no auto-silo. Quinze minutos depois, a empregada Joyce do Marabella, servir-lhe-ia a bica sem açúcar e uma tosta mista. Em não mais de 10 minutos terminaria a sua frugal refeição, para dar entrada às 9:00 em ponto na “Time”.

Isso era diário, fazia-o por sistema. Amante das listas “para fazer”, colecionador de calendários, que os tem para variadíssimas finalidades, escusado era dizer que detestava surpresas. E isso granjeou-lhe a fama de grande profissional, em quem se podia confiar, neste complexo mundo de chineses, tipicamente avesso ao improviso. Era o homem do tempo certo. Houve quem nos círculos mediáticos sugerisse, jocosamente, que deveria ser nomeado Secretário do Governo, para que se desse vazão a coisas públicas que teimavam em atrasar-se. Tornou-se o orgulho da empresa e inveja dos concorrentes, que lhe pagariam muito mais para daí sair. Ele manteve-se, porém, fiel à “Time”. Ainda não chegou a hora para isso.

Time-Spiral-1200x1200Contudo, se era um prodígio para a sua companhia, era um carrasco para os subalternos. Qualquer papel ou diligência fora da hora designada, era motivo de severa repreensão, independentemente das explicações que ao caso couber. Levaria uma hora para rever tudo o que fizera no dia anterior, analisar o “schedule sheet”, verificar os telefonemas que teria de fazer no dia e peneirar do vasto correio electrónico diário, aquilo que mereceria a sua atenção.

Se o homem é escravo de qualquer coisa, dizia, preferiria a sua submissão ao tempo, à droga das redes sociais. E assim evitaria a contaminação da fútil distracção internética ao trabalho que requereria pontualidade. Ponto por ponto, na ponta da hora.

Todavia, tal como os relógios param, de vez em quando também falhava. Contratempos surgem quando menos se esperam e ele compreendia-os, embora teria o dia estragado. Entre outros remédios, faria no seu gabinete 15 minutos de meditação. Isso recuperar-lhe-ia o  seu senso de disciplina nesses dias de crise, dias para esquecer. Usaria da mesma receita à noite antes de dormir. O estado de leveza a que pretenderia chegar com isso, desbravaria caminho para um sono tranquilo, que se prolongaria até as 7:05 do dia seguinte. Uma espécie de reboot do seu sistema.

Porém, num dia desses, nada funcionou. Nem com a meditação, nem  com o assistente e a secretária ao seu dispor, pôde restabelecer o seu equilíbrio espiritual. O escritório de cima resolveu entrar em obras e o som da broca e do martelo nas paredes era demolidor. Embora já tivesse sido alertado dessa ocorrência, não teve outra solução que sair.

Fora do seu escritório as coisas também não melhoravam. Desde logo a espera pelo elevador, que nunca mais chegava. Tentou minimizar a sua impaciência, focando o seu pensamento em coisas que nada tinham a ver com a realidade que enfrentava no momento. Aprendera que quanto mais se odeia o momento que se vive, mais longo é o tempo que se sente. Imaginou-se a pedalar nos Lagos Nam Van.

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Por fim, entrou no elevador vazio e suspirou fundo. Pensou nos lugares onde iria quando já marcavam 11:00. Iria à biblioteca requisitar um livro, até 12:30. Depois, a pé ao Clube, onde almoçaria e ficaria até às 3:00 da tarde. De seguida daria uma saltada à casa de cafés, a Ferreira Espresso  para levantar a sua encomenda e… A porta do elevador ia fechar, quando uma mão feminina o impediu.

“A tempo! Que sorte!” – sorriu ao entrar diante do atordoado Humberto. “Estes elevadores fecham depressa demais, para depois serem tão lentos”. Ele assentiu mudo, não esperava alguém lhe falasse tão despreendidamente.

“Morreria, se eu tivesse que ir para o hospital”, queria que isso soasse a piada, mas era o que se soltara da sua cabeça. Ela tapou a boca e riu-se, concordando.

“E com a câmara ali em cima, tornar-me-ia numa pessoa famosa, tendo presenciado uma morte tão estranha!”, respondeu com o mesmo à-vontade com que iniciara. Gargalharam à medida que o elevador descia a passo de caracol.

A sua voz era aveludada, meiga com ligeiro tom gutural. Olhos vivos e amendoados, castanhos claros, num rosto alvo de cor de marfim. De cabelos compridos e sedosos, com estatura mediana, vestia-se em tons de flores secas, a condizer com o sorriso mais fresco que alguma vez ele já vira. Podiam-se adivinhar os traços do seu físico, delgado e frágil, o qual assentava graciosamente sobre os seus pequenos pés, em saltos altos de cor clara. Era a primeira vez que vira Elaine.

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Primeira vez também, desde há muito tempo que uma mulher o olhava daquela maneira que o perturbava. Não lia segundas intenções naqueles amendoados olhos, apenas uma fascinante espontaneidade.

Nunca imaginara que a cavaqueira do elevador se prolongasse na rua. Banalidades que não acrescentariam nada de novo à sua existência, puxavam para outros assuntos e provocavam mais surtos de risada genuína. Dela soube que nascera em Macau, que voltara dos Estados Unidos e estava à procura de um emprego como contabilista. Não era nova, vinha recomeçar a sua vida.

Havia muito que não acontecia estar na dúvida para onde iria. No entanto, essa incerteza estava a dar-lhe um prazer inexplicável. E tocavam horas de almoço. Não lhe apeteceu ir ao Clube. Ela então sugeriu que comessem um van tan min ao Vai Kei, o estaminé dum velho amigo de seu pai. Aí sorveram e devoraram a sopa de fita e de propósito, fizeram-no ruidosamente que nem uns catraios.

Depois falaram, disseram e conversaram. E muito, pela tarde fora. Era filha única e assim partiu para a América, de lá voltando divorciada. Se isso era boa notícia para os pais, só os deuses dirão, o certo é que estava à mercê do destino que se lhe reservava. Muito desencontro e tempo perdido, na sua vida longe da terra. Ele disse-lhe que era essencialmente um trabalhólico, vivia sózinho, não obstante, com o tempo completamente preenchido. Lia muito, cozinhava para si. Desde que voltou de Lisboa, nunca mais saiu de Macau. Não tinha muito mais para lhe contar. Gostaria de ter sido tão franco quanto ela. Não lhe quis dizer de quanta sova, escárnio e provação apanhara em pequeno por chegar atrasado.

“Porquê tenho a sensação de te conhecer há muito?”, Elaine perguntou-lhe enquanto faziam o longo caminho a pé até sua casa, já depois do jantar.

“Também me interrogo disso desde o elevador, porquê nos damos tão bem?”

“Não tens uma namorada porquê?”. Aí ele hesitou.

“Ninguém perde tempo comigo. E eu respeito isso”, esboçou um sorriso tímido. Não podia ter sido mais real consigo mesmo. Sabia que mostrava o seu flanco, mas estava demasiado cansado de se defender, como sempre fez durante toda a sua vida. Ela sabia também e não insistiu.

“Sobes?”

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Em casa dela não falaram mais. Entregaram-se como amantes por toda a vida. Exprimiram-se em murmúrios, palavras quebradas, olhares e suspiros, numa dançante cumplicidade que só a eles fazia sentido. Para ela, a sorte deu-lhe o tempo para um reencontro na sua vida. Quanto a ele, o tempo deu-lhe a sorte para se reinventar.

Os seus olhos abriram às 7:05. Cumpriu-se o seu power walk  e às 9:00 abria-se-lhe a porta automática do edifício da “Time”, depois do pequeno almoço no Marabella. O que se seguiu foi uma revolução. Cumprimentou todos, desde o seu assistente ao estafeta Ah-Meng, elogiou o belo vestido da sua secretária. Esteve atarefado a ler as notícias da manhã, limpar  o lixo do seu correio electrónico. Pediu à secretária que cancelasse todas as reuniões marcadas para o dia. Instalou-se o pânico e todos acharam por bem que o director fosse para casa, enquanto prosseguir a martelada no piso de cima.

Ele ria-se em silêncio do escândalo que estava a causar. Olhou à sua volta, os gráficos, as notas organizadas e mapas nas paredes, três computadores sobre a extensa secretária, retratos com empresários do Continente, com o Chefe do Executivo, as medalhas e troféus vários, um gabinete que espelha sucesso. Mas em quê, se em vinte e quatro horas tudo mudou de sentido? Ainda que tudo fosse um mero delírio, ao menos viu cores que só ele podia ver.

Enquanto cogitava, o nome “Elaine Lee” aparecia no visor do seu telefone que vibrava.

“Sabes que horas são?!”

Não estava a sonhar. Tinha combinado almoçar com ela e estava atrasado. Abriu-se nitidamente um novo capítulo da sua vida, para durar como o tempo quiser e para o que der. Sorriu de alívio e num ápice estava em casa dela.

E nesse fim da tarde amou-a. Não havia nada que lhe interessava mais. Apenas desejava que aquele momento levasse o seu tempo indefinidamente. Na telefonia ouvia-se um clássico bolero.

“Reloj, no marques las horas… porque voy enloquecer…”

 

2 de Março de 2018, Sexta feira

@ Miguel de Senna Fernandes

A Obra do Art

Tudo começou com ele aos berros com o seu interlocutor, numa discussão ao telefone que ocorrera  às traseiras do restaurante onde interrompera o seu almoço, num terreno ainda vago para construção. Ninguém daria importância alguma se ele não fosse Art Dung.

Nascido Artur Durão, Art passou, de um momento para outro, a ser uma das pessoas mais populares e respeitadas do burgo. Quando foi lançado o seu primeiro livro “O Furo no Pneu”, sobre a vida de um barbeiro, mal imaginava o editor que estava perante um fenómeno. “Estilo etéreo”, “assombro nas letras” e outras expressões do género foram-se ouvindo a seu respeito em tertúlias e noutros círculos intelectuais. Passou a ser convidado a opinar sobre arte, desde a música à culinária. À primeira, não se entende nada o que diz. Porém, ”ele é profundo”, dizem.

Indivíduo de metro e quarenta de altura, de calva brilhante, voz de flauta e óculos escuros mesmo à noite, invariavelmente de casaco negro luzidio de cabedal, faça sol, faça chuva, frio ou calor. Exprime-se efusivamente, qual regente de uma sinfonia de Brahms,  correspondendo a cada expressão um gesto, um trejeito, um rolar dos olhos. Não se sabe se ele faz gala disso, mas é amiúde surpreendido a pensar alto, não só falando consigo mesmo, como também com tudo que encontrava pelo caminho, incluindo cães, gatos e plantas. As pessoas sorriem com deferência perante o espectáculo que faz com gosto. De facto, pelo estatuto alcançado quem ousaria a por em causa a sua genuinidade intelectual? É o homem do momento, o mais cool de entre os seus semelhantes.

Mas, estava nesse dia visivelmente incomodado. Os seus braços curtos esticavam-se e contraíam-se, num vai-vem estonteante à medida que altercação se desenvolvia. Ao que se apurou mais tarde, foi a propósito de uma sanita que ele apelidara de  “modelo florentino” para sua casa de banho que o seu empreiteiro não conseguira encomendar. Sentira-se enganado.

IMG_5957A sua voz era tão estridente que tirou o sono ao velho Vong Kam, o qual aí se recuperava a custo de uma ressaca da noite anterior. Tinha nesse dia um transporte a fazer do entulho que aí se encontrava, uma amálgama empilhada em forma de cubo, de ferro velho, objectos de bronze, bocados de bacias, tampos de sanita e um pouco de tudo. O velho Vong resolveu então retirar-se do sítio rumo à mercearia Leng Kei. Já que não podia continuar no seu sono, ao menos saboreasse ali uma cerveja, como fazia todos os dias. A tralha podia esperar nesse sítio, que ninguém a incomodaria. E é quando aí chegou Art, no seu devaneio.

Olhava sem ver os escombros, mas do seu falsete, saíam brados como “Que bela obra!”. Depois “Isso não tem preço…quem poderá pagar por ela?!”. E claro, quando se irritava em demasia vociferava coisas como “Deus é grande!”. Soube-se depois que a outra parte, não respondera ao seu sarcasmo, mas antes o implorara que aceitasse o modelo que conseguira. Era artístico também e satisfaria qualquer deus, garantia!

E já nessa altura três ou quatro pessoas escutavam-no atentamente. Enquanto se sacudia freneticamente com as mãos, braços, pescoço, acorria mais gente ao local, num cenário que começava a ganhar ares de Cristo no Monte das Oliveiras. Sincronizadamente, as cabeças dirigiam-se, ora para o entulho cubóide do velho Vong Kam, ora para o discurso inflamado do pequenote artista. Os telemóveis seguiam a coreografia, blocos de notas começavam a aparecer e canetas a rabiscá-los.

Etoilets-piled-up por fim, num derradeiro gesto de frustração, deu um murro sobre um pedaço de bacia amontoada, sentenciou lugubremente ao que o seu fornecedor lhe teria feito: ”Isso é Arte!”. Estava cansado, era demasiada a revolta e ele sabia que não tinha coração para isso. Suspirou fundo e saiu do local.

Um silêncio sepulcral instalou-se por uns segundos. As pessoas entreolharam-se sem saber o que fazer. Até que dois jovens resolveram sentar-se junto do entulho em posição de vigília. Seguiram-se depois mais alguns da mesma idade, formando um círculo à volta da amálgama artística. Houve logo quem a apelidasse sem hesitação de arte urbana neo-cubista. Mais gente aparecia e primeiras máquinas fotográficas profissionais disparavam.

Quando o velho Vong Kam finalmente despertara do seu sono de cerveja, estava uma pronunciada multidão. Olhou  para o relógio e era tarde, precisava urgentemente de fazer o transporte quanto antes e dirigiu-se ao entulho, preparando-se para a façanha. Impediram-no de fazer fosse o que fosse. Nada valeu qualquer explicação, que os jovens entrincheiraram-se em defesa da tralha.

Perplexo com esta atitude, outra ideia não teve que chamar a polícia que na zona já rondava. Dois agentes seguiram para o local tentando demover a multidão. Os jovens resolutos em não largar mão da sua dama, barricaram-se ainda mais e responderam lançando-lhes aviões de papel.

No momento em que chegava a Televisão Pública e a Rádio, já havia microfones no ar, repórteres fazendo o seu trabalho. Nas redes sociais, comentários mais díspares ganhavam tom. Os jovens e agora também pessoas de outras idades rodearam o artístico entulho, de mãos dadas num gesto de fraternidade universal e cantavam “We Are The World”.

740e3906-136f-11e7-8424-32eaba91fe03_1280x720_050711A polícia chegou com vinte agentes e o responsável empunhou o megafone exortando à dispersão. Nessa altura a melodia “Imagine” de John Lennon já estava na boca do povo. Ninguém ligou, até que  o mesmo responsável ameaçou avançar caso não deixassem remover o lixo. E todos incorreriam em crime de desobediência, uma vez que se tratava de uma manifestação não autorizada.

Um dos jovens, protegendo-se com o tampo de uma sanita que encontrara abandonado gritou: “Lixo para o Governo, deixem-nos a Arte!”. O mote vingou e a polícia carregou. Os indignados resistiram com a mesma protecção, imitando o destemido jovem.  E nasceu assim o que mais tarde veio a ser conhecido como “O Movimento do Tampo”.

Por fim venceu a ordem e a segurança pública. Erradicaram o cubo entulhado do terreno, que aliás se tornou zona interdita. Os jovens foram levados à esquadra policial para autuação. Era visível o desgosto e a sensação de luto, estampados nos rostos de todos quantos estiveram presentes. “Foi-se a Arte, venceu a Ignorância!”

ProtestO eco produzido até acordou a Assembleia Legislativa, e antes que o deputado que usava pedir a cabeça de todos os governantes, proferisse o seu inflamado discurso, já o Secretário se prontificara a comparecer para justificar como longe estava ele de qualquer culpa.

No momento em que estas letras são redigidas, está a decorrer uma mega manifestação pró-democrata, em prole da arte urbana que segundo a organização do evento está a ser ameaçada de forma descarada e vil. Nas redes sociais, já se fala em interesses ocultos, das pontas de icebergs, dos Illuminati e das forças luciferinas. E mais uma vez se pede a demissão do Chefe do Executivo.

O velho Vong Kam, voltou à mercearia Leng Kei para a cervejada. Fizeram o transporte por ele e sobrou-lhe mais tempo para uma nova rodada.

Quando por fim localizaram Art Dung e lhe perguntaram sobre o sucedido, respondeu de forma honesta e sincera: “Só Deus sabe como tudo se passou!”. E mais não disseNinguém percebeu, mas todos concordaram que foi lapidar e profunda a sua mensagem.

Macau, 23 de Fevereiro de 2018, sexta feira

©Miguel de Senna Fernandes

Preciso de café

IMG_5898O DESPERTADOR tocou no momento em que entrava no sono profundo. Não valia a pena lamentar-se da sua frustração. Tinha de se recompor o mais rapidamente possível, para estar na reunião da manhã, mais uma da maratona que retomaria o seu ritmo diário, dentro de em breve. O prazo de entrega do projecto exigia sacrifício e estava a terminar.

Não havia nada mais importante naquele momento. Nem os croissants que a mulher lhe comprara, e que dizia estarem comme il fault. Precisava de um café. Com açúcar, sem ele, com leite, desleitado, precisava dele que nem um louco. Nesse dia, a empregada  Lorraine pediu folga para tratar dos assuntos junto do seu consulado. E lembrara-se que adiara mais uma vez a compra de uma nova máquina.

Saiu para a rua e rapidamente estranhou. A vida em correria de casa para a empresa e vice-versa, não o permitiam ajuizar sobre como tudo mudou. Ele, que conhecia o seu velho bairro, deu-se por confuso, quando se apercebeu que a modernidade chegou e varreu tudo o que era o normal ver-se. Nas redondezas até fecharam os dois estabelecimentos de comida, depois de terem servido o bairro durante tantas décadas. Pareceu-lhe incrível que em Macau já não se encontra um local onde se pudesse beber um simples café!

Felizmente, o seu desespero foi efémero. Ao cabo de cinco minutos de deambulação deu-se  com o FerreiraEspresso, o novo estabelecimento sofisticado e elegante de café, que tanto se falou na rádio e na televisão, publicitado nos táxis e autocarros, como o pináculo da cultura do café, apostado em revolucionar a comum visão que se tem do néctar negro. Não queria saber por que carga de água aparecia um nome português numa coisa que nada tinha de lusitano, num recinto onde só se viam fotos de Veneza, Rio de Janeiro e Xangai. Precisava era de café.

O Espresso acolheu-o como ninguém alguma vez o tivesse feito. Todo ele em tons basálticos, com paredes e colunas forrados com chapas de granito preto, que mais lembrava a uma solução mesclada de Zara e Massimo Dutti. Tudo polido, desde o chão até o tampo do balcão de atendimento.

As funcionárias, com maquilhagem sóbria e penteado executivo, trajavam-se a preto, num uniforme justo ao seu físico delgado, ao estilo de aeromoça, de saltos altos glossy black, com nomes impressos em crachás prateados no seu peito esquerdo. Antes que ele pudesse balbuciar algo inteligível, já elas lhe faziam sincronizadamente a vénia à japonesa. Era manifesto o treino profissional a que todas se submeteram. Tendo todas a mesma altura, compleição física e tom de alvura na pele, foram certamente escolhidas a dedo.

“Eu preciso…”

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“Pois com certeza, sente-se aqui. Meu nome é Shya”. A sua voz era tão suave e terna que apaziguaria qualquer alma arrancada de um sono turbulento.  “Temos novos sabores que a minha colega lhe apresentará. Mas antes disso, vamos preparar o seu pré-pagamento? São 175 patacas. Não se preocupe que aceitamos cartões mesmo nesse valor”.

Estupefacto, mas sem conseguir travar a sua acção de desembolsar o valor que lhe era pedido. Na verdade, pagaria até cinco vezes mais.

“Mas eu preciso…”

“Sabemos”, adiantou Shya, esboçando um sorriso sabedor. “Mas, fazemos questão em lhe apresentarmos os novos sabores que FerreiraEspresso encomendou do Japão”.

Fez uma pausa quando deparou com a sua perplexidade. Mas voltou a sorrir. “Tal como o vinho pode saber a couro, madeira e banana, o café também tem as suas nuances e momentos. Essa é a nossa última colecção de meia-estação. Com certeza, quer prová-los, certo?”

Ela falou-lhe com tanta convicção que o abalou. Assentiu só para que não lhe dissesse mais nada. As pálpebras começaram a pesar toneladas, os papos pronunciavam-se sem pejo. Precisava urgentemente de…

“Cereja, baunilha e caramelo estão em promoção. Amanhã chegarão framboesa, ananás e chocolate. Ontem um casal comprou três caixas com sabor a morango, que estão uma delicia”, continuou a fresquíssima Shya. “Está a ver aquela fila que se está a formar? O público está a aderir ao nosso trend.

Suspiro de impaciência.

“Se a sua opção for de baunilha, sugiro ainda juntar um pau de canela. Temos uma edição golden a 120 patacas da melhor canela de Veneza. Todavia, se escolher caramelo, temos biscoitos, que são uma mistura de churro e pastéis de Koi Kei. São uma confecção signature do nosso patrão…”

E não continuou mais quando viu a palma de uma mão diante dos seus olhos.

“Eu precisava era um que soubesse a … CAFÉ”.

20150818-coffee-beans-shutterstock_71813833Silêncio.

As funcionárias entreolharam-se e uma delas ligou o intercomunicador. Não tardou que pairasse no ar a fragrância de alfazema, rosa seca e couro, anunciando a chegada do  supervisor. Impecavelmente trajado também a preto, com gravata luzidia. Cabelo preto, com têmporas rapadas, ostentava um brinco no seu lóbulo esquerdo. Nos seus cerca de trinta anos, Ramón Legazpi, nome que ostentava no seu crachá, era alto, musculado e moreno. Bigode fino e pêra aprumada. Ágil no seu andar, flutuava que nem uma diva angélica. E sorriu-lhe no modo mais caloroso como nenhuma mulher o tinha feito.

“Estou a ver que tem um problema. Mas, não se apoquente, que não existe nada que FerreiraEspresso não resolva”. O sorriso era agora mais intenso e intimista. “Café… temos sim senhor!”

“Até que enfim!” bradava o seu íntimo, sem se importar com as pausas de suspense que ele lhe criava.

“Arábico, guatemalteco, colombiano? Ristretto, Doppio, Lungo, ou então Macchiato, Corretto ? Já sei, talvez um Cortado? Ou, melhor ainda, temos um gelado de Rum-Raisin a condizer com um Affogato. E não custará mais que 95 patacas.

“Olhe… por favor dê-me apenas as borras, que eu trato do meu café!?

“Hmmm… vai ter que esperar, porque teremos que embalar isso. Ai, como você irá adorar o nosso package. Está tão devine! Serão tão-só 25 patacas, com direito a chocolate.

O sangue subia-lhe à cabeça, enquanto a adrenalina superava o seu estado deplorável de uma noite não dormida.

“Pronto! Não quero mais nada. Desisto. Preciso é de água! Apenas ÁGUA!

Silêncio.

Ramón assentiu suavemente e fez sinal às pupilas que tudo estava sob controle. Aproximou-se e olhou para os lados para se certificar se alguém os escutava. E sussurrou.

“Vamos ser discretos, pois sabe que a nossa empresa só vende café. Mas serviço personalizado é mote aqui em FerreiraEspresso. Assim, é só a si que faremos isto, porque você é honesto”. Sem deixar de o mirar, mostrou-lhe a sua tablet.

“Vêm de França e Itália, com ou sem gás, de classes A, B, C e D de alcalinidade e de composição mineral. Este é o melhor catálogo de águas que temos, a 60 patacas cada só para si.”

Macau, 16 de Fevereiro de 2018. Sexta Feira.

©Miguel S. Fernandes

Hey!

–  Hey!

Chamou Roberto, ao homem bem trajado, sentado à mesa do restaurante, que folheava o cardápio. Não se recordava do nome dele, mas estava convicto de que o conhecia. Foi no jantar do Rotary Clube. Não, foi na recepção do novo Cônsul Geral do Canadá. Qual quê, no casamento da prima Júlia… Não tinha a certeza, a não ser a de que, como novo membro do Clube, devia cumprimentá-lo.

Hey!  Como vai? – Eis a resposta que obteve.

Também Carlos não tinha a certeza da pessoa do seu interlocutor. Era-lhe familiar. Tão familiar que lhe parecia mal ignorá-lo. Aliás, no Clube ninguém podia ignorar ninguém. Generosidade fazia parte da etiqueta, principalmente para quem acabou de ser aí admitido.

– Sente-se, há tanto tempo que não o via.

– Pois é, já lá vão uns meses. Como tem passado? – tentava ganhar tempo, mas não lhe ocorria outra frase menos cliché, e a mente folheava em vão as páginas da memória, sem descortinar a pessoa que acabou de o convidar.

– A vida tem corrido bem, graças a Deus! – disse efusivamente, com a esperança de que deste modo o seu interlocutor se lhe revelasse melhor. – E você?

– A vida também sempre a andar e não pára, com altos e baixos como em tudo – sorria, sabendo da futilidade disso que nem resposta tinha categoria de ser.

Já sentado na mesa da pessoa que começava a esboçar-se no limbo da sua memória, arriscou.

– Sózinho?

– Sim, não sou casado.

Decididamente não era o que conhecera no casamento da Júlia, que tinha mulher e duas filhas. Enquanto cogitava coisas para alimentar a conversa, Carlos avançou.

– Se não estou em erro, você trabalha na secção de seguro de vida na Império, certo?

– Sim! – Roberto nem pestanejou. Mas recordou-se logo de seguida que era apenas um cliente da mesma empresa.

– Sou muito amigo do Sammy Wong.

Tratava-se naturalmente de alguém importante da Seguradora, de quem o seu interlocutor era chegado. Amigo do Sammy e não de senhor qualquer.

– E quem não seria? É um tipo fora de série, com um sentido de humor do mais apurado, sempre pronto para ajudar, não acha? Quando esteve com ele?

Carlos já se arrependia desse rasgo de inspiração, quando lhe calhara esse nome de que nem ao Diabo lembraria.

– Na semana passada, num cocktail do Clube Militar. Oh, foi pena você não ter ido. O Sammy estava inspirado até mais não.

– Nada me espanta com ele. Com certeza distribuiu os seus cartões de visita bem vistosos. Os tais! – Piscou o olho, brejeiramente, quando lhe ocorreram imagens de panfletos de propaganda pornográfica deixados ao abandono junto de alguns hotéis da cidade.

Carlos quase se engasgara com essa, mas recompusera-se o suficiente para gargalhar ao que supostamente devia ser uma piada. Mas depois, atravessou-lhe o calafrio pela espinha, ante o facto de não saber de que “tal” cartão se trataria.

– Claro! Só podia ser o Sammy com essa dos …cartões! – Não se desfez e retirou a sua carteira do bolso – Oh, que chato não trago nenhum, pois mostrar-lho-ia! – Adiantou-se antes que o outro lhe perguntasse por ele.

Roberto também se soltava desbragadamente, embora interrogando-se qual teria sido a história hilariante por trás do raio dos cartões, que fortuitamente lançara à conversa. Quem seria Sammy Wong?

A conversa já progredia em segunda pessoa. Falaram de tudo, de política, da Seguradora Império, dos planos estratégicos para a China Continental, das pessoas que supostamente deviam conhecer e, claro, das peripécias do Sammy. Pediram sopa e bitoque, dispensando vinho e sobremesa. Pensaram também na conta, se um tivesse que convidar o outro.

– Esplêndido almoço! – Eis a exclamação comum a final. Combinaram novo encontro para a seguinte semana, no mesmo local e na mesma mesa, e procederam à troca dos cartões de visita. E antes de se aperceberem de que os nomes daí constantes, nada têm a ver com quem quer seja do círculo dos respectivos conhecidos, entrava de rompante o Dr. Lei Man Fai.

Hey!

A voz do “Presidente” era tão forte e entusiástica que todo o restaurante estremeceu. Um homem de sorriso largo e franco, que falava com alma e paixão, generoso e arguto. Na verdade era apenas o relações-públicas do clube. Mas a sua postura de autoridade conferia-lhe um estatuto que só presidentes mereciam. Roberto e Carlos, levantaram-se num ápice para cumprimentar o extravagante dirigente, quando este passava pela sua mesa.

– Olha quem está aqui! – essa, uma das frases de marca do afável “Presidente”, a todos que encontrava pelo seu caminho.

Carlos, não estava minimamente à espera da exclamação efusiva que lhe era dirigida. Não obstante, soube-lhe bem ouví-la, pois vinha de quem certamente pesava no Clube.

O generoso doutor não ficou por aí, e de seguida deu uma palmada no antebraço do outro – Até que enfim te vejo aqui!

Roberto sentiu-se melhor, não foi preterido. Até achou que o comentário do simpático doutor, soara ainda mais intimista.

– Pois, até que enfim. Não me esqueci das vezes sem conta que você me falou deste Clube.

– Sempre soube que este clube era o melhor, também não resisti – Carlos não quis ficar para trás.

– Meus queridos, isto não é casa para qualquer um. Aqui reina a classe e a sua finura. O espírito é de partilha, de boa disposição e de camaradagem. Tenho a certeza de que isso vai na linha do vosso feitio. E já agora quem vos recomendou? Deve ter sido um amigo muito bom!

Ambos assentiram e pensaram no mesmo, quanto à pessoa de maior crédito no momento.

– Sammy Wong!

– Ahh… Sammy, o mágico?

Pela primeira vez trocaram olhares.

– Sim… esse mesmo. Da Império. – adiantou Carlos.

– O homem dos cartões! – Roberto completou.

O presidente abriu os olhos e sorriu ainda mais.

– Pois é mesmo como vocês o conhecem! Exímio nos tais cartões. Eles aparecem e num ápice ele fá-los desaparecer à nossa vista! Olha que ele não dá show para todos! – Risos de brejeirice.

– Você deveria tê-lo visto na semana passada, foi um espectáculo!

Carlos repetia confiante a história que relatara a Roberto. Este não ficando atrás, até se lamentou ter deixado em casa o que o famoso lhe teria oferecido. Sentiam-se agora alguém. Falavam com legitimidade de Sammy Wong e presenciaram como privilegiados o seu espectáculo de magia na semana passada com os tais cartões.

Por fim despediram-se, tendo o dr. Lei insistido em pagar a refeição, e ante o protesto dos outros, combinou-se novo almoço para o dia seguinte por conta destes.

Lá fora do Clube, Roberto e Carlos apertavam calorosamente as mãos, como amigos de longa data. Por ambos passara a confortável sensação de ter ganho o dia, o terem almoçado no Clube e merecerem a liberalidade do seu presidente, nessa sua primeira vez. Prometeram mutuamente a manterem-se em contacto, especialmente nas tais ocasiões mágicas.

Lá dentro do Clube, o Dr. Lei falava ao telefone.

– Sr. Inspector, quanto àquela informação que me pediu há uns tempos atrás, sobre os cartões de crédito falsificados, o “mágico” está em Macau. … Como eu sei? Dois indivíduos que nunca vi na minha vida, acabam de me contar coisas que só confirmam isso… Claro que é de fiar, que interesse teriam em inventar a história que me contaram? Tenho os seus contactos. E amanhã almoçarão comigo, se quiser apareça. Agora deixe de me telefonar todos os dias, pois trabalho e não faço truques de magia!

Macau, 9 de Fevereiro de 2018, sexta feira.